Por: Oftalmologista Camilla Duarte
CRM - SP 129644 / RQE 36587

Como oftalmologista especialista em plástica ocular, meu propósito é restaurar não apenas a função visual, mas também a qualidade de vida dos meus pacientes. Recentemente, um caso em particular ilustrou de forma marcante a jornada de transformação que uma intervenção precisa e moderna pode proporcionar. Uma paciente jovem chegou ao meu consultório, aqui em São Paulo, com uma queixa que, à primeira vista, poderia parecer simples: lacrimejamento constante no olho esquerdo há um mês. No entanto, essa condição, conhecida como epífora, estava afetando significativamente seu dia a dia, comprometendo suas atividades profissionais e pessoais, e escondia um problema oftalmológico mais complexo que exigia investigação detalhada e intervenção cirúrgica especializada.

A obstrução da via lacrimal é uma condição oftalmológica na qual o sistema de drenagem das lágrimas, que se estende do canto interno dos olhos até a cavidade nasal, fica bloqueado ou estreitado. Esse sistema de drenagem é fundamental para manter a saúde ocular, pois permite que as lágrimas, após lubrificar e proteger a superfície do olho, sejam drenadas naturalmente através do ducto nasolacrimal. Quando essa via se obstrui, a lágrima não consegue seguir seu fluxo natural, acumulando-se na superfície ocular e causando o lacrimejamento excessivo, conhecido como epífora .

Uma das complicações mais sérias e debilitantes da obstrução permanente da via lacrimal é a dacriocistite, uma infecção do saco lacrimal que pode se apresentar de forma aguda ou crônica. A dacriocistite é caracterizada por um processo inflamatório que acomete o saco lacrimal, geralmente secundário à obstrução do ducto nasolacrimal. Quando essa condição se torna crônica, como no caso da paciente que acompanhei, ela pode evoluir para complicações mais graves, incluindo inflamação da córnea (ceratite), que afeta significativamente a visão e a qualidade de vida do paciente.

Os sintomas da obstrução de via lacrimal variam em intensidade e apresentação, mas o mais frequente é o lacrimejo persistente ou intermitente que pode se agravar em determinadas condições, como exposição ao vento ou ar condicionado. Os pacientes frequentemente relatam sensação de "olho húmido", visão turva, irritação ocular e, em alguns casos, uma história de vários episódios de olho vermelho e secreção. Muitas vezes, esses episódios são diagnosticados incorretamente como conjuntivite crônica ou recorrente, e o tratamento com colírios apenas alivia os sintomas de forma temporária, sem resolver o problema subjacente.

No caso desta paciente específica, a investigação diagnóstica foi absolutamente crucial para identificar a causa real do problema. Inicialmente, realizei um teste com fluoresceína, um corante oftalmológico que aplicamos na superfície do olho para avaliar a drenagem lacrimal. O teste mostrou uma retenção significativa do corante no olho esquerdo, um claro sinal de que a drenagem estava comprometida. Para confirmar a localização exata da obstrução e determinar se era alta (proximal) ou baixa (distal), realizamos uma dacriocistografia, um exame de raio-X com contraste que permite visualizar o caminho das lágrimas. O resultado revelou uma obstrução alta na via lacrimal, impedindo que o contraste chegasse à cavidade nasal, confirmando que o problema estava localizado no saco lacrimal.

Com o diagnóstico confirmado de obstrução alta da via lacrimal e o quadro clínico evoluindo progressivamente para uma dacriocistite crônica, a indicação cirúrgica foi absolutamente clara e necessária. Após discutir todas as opções de tratamento com a paciente, decidimos pela dacriocistorrinostomia endonasal, uma

cirurgia de via lacrimal

minimamente invasivo realizado inteiramente por dentro do nariz, com o auxílio de um endoscópio nasal de alta definição.



A dacriocistorrinostomia é um procedimento oftalmológico que rerouta o sistema de drenagem lacrimal, criando uma nova abertura para o fluxo de lágrimas. Essa abordagem moderna oferece inúmeras vantagens em relação à técnica externa tradicional, que envolve uma incisão na pele entre o olho e o nariz. As principais vantagens da técnica endonasal incluem a ausência de cicatrizes visíveis na pele, uma recuperação mais rápida, menor desconforto pós-operatório e um tempo cirúrgico reduzido .

O objetivo da cirurgia é criar um novo caminho para a lágrima, contornando completamente a obstrução. Para isso, realizamos uma pequena abertura no osso lacrimal e no saco lacrimal, conectando-os diretamente à cavidade nasal. Essa nova passagem permite que as lágrimas drenem naturalmente para o nariz, restaurando o fluxo normal.

Durante o procedimento, para garantir que essa nova passagem permanecesse aberta durante o processo de cicatrização, inserimos um stent de silicone, um pequeno tubo de material biocompatível que atua como um suporte estrutural. Esse stent mantém a abertura patente enquanto os tecidos cicatrizam, evitando que a passagem se feche novamente. O stent é removido após aproximadamente dois meses, quando a cicatrização está suficientemente consolidada.

A tabela a seguir apresenta uma comparação detalhada entre as duas principais abordagens de cirurgia de via lacrimal para o tratamento da obstrução de via lacrimal:

A evolução da paciente após a cirurgia foi extremamente gratificante e recompensadora. Já no pós-operatório imediato, ela relatou um alívio significativo dos sintomas que a incomodavam há tanto tempo. As imagens endoscópicas obtidas durante o procedimento mostravam a nova abertura cicatrizada e funcional, com o corante de fluoresceína passando adequadamente através da nova passagem, confirmando que o fluxo lacrimal havia sido restaurado.



Primeira Semana Pós-Operatória

Na primeira semana após a cirurgia, a paciente apresentava um quadro clínico muito melhor. O olho estava menos inflamado, a dor havia praticamente desaparecido, e ela relatava uma redução significativa no lacrimejamento. Realizamos uma avaliação oftalmológica completa para verificar a cicatrização inicial e confirmar que o stent de silicone estava bem posicionado.

Um Mês de Pós-Operatório

Com um mês de pós-operatório, a região do saco lacrimal estava completamente aberta, o canalículo estava pérvio (permeável) e o tubo de silicone estava bem posicionado, mantendo a passagem aberta conforme esperado. O olho, que antes se apresentava inflamado e com ceratite (inflamação da córnea) que afetava significativamente a visão, já demonstrava uma melhora expressiva. A superfície ocular estava menos irritada, e a paciente relatava uma visão mais clara.

Dois Meses de Pós-Operatório: Resultado Final

Dois meses após a cirurgia, o resultado era ainda mais impressionante e gratificante. O olho estava completamente calmo, sem dor, sem secreção e, o mais importante, sem o acúmulo de lágrimas que tanto a incomodava. A melhora da superfície ocular foi notável, com a resolução completa da inflamação e da ceratite, o que resultou em uma visão significativamente mais nítida e confortável.

Após a remoção do stent de silicone, realizada no consultório de forma rápida e praticamente indolor, a paciente ficou completamente assintomática. A nova passagem lacrimal manteve-se aberta e funcional, permitindo a drenagem adequada das lágrimas. Sua qualidade de vida foi totalmente restaurada, e ela pôde retornar às suas atividades profissionais e pessoais sem qualquer incômodo ou limitação.

Este caso clínico reforça de forma inequívoca a importância crucial de um diagnóstico preciso e de um tratamento adequado e oportuno para a obstrução da via lacrimal. Muitos pacientes sofrem desnecessariamente durante meses ou até anos com lacrimejamento crônico, sendo tratados incorretamente para conjuntivite ou outras condições oftalmológicas, quando na verdade apresentam uma obstrução de via lacrimal que requer investigação específica e, frequentemente, intervenção cirúrgica.

A dacriocistorrinostomia endonasal, com suas altas taxas de sucesso (91-96%) e recuperação mais rápida, representa um avanço significativo e importante no tratamento dessa condição oftalmológica. Essa técnica minimamente invasiva permite que pacientes como a que acompanhei possam deixar para trás o desconforto do lacrimejamento crônico, a inflamação ocular e as complicações associadas, e voltar a enxergar a vida com clareza, conforto e sem lágrimas indesejadas.

Se você está experimentando lacrimejamento excessivo persistente, especialmente se acompanhado de visão turva, irritação ocular ou episódios recorrentes de olho vermelho, é fundamental procurar um oftalmologista especializado para uma avaliação completa. O diagnóstico precoce pode evitar complicações como a dacriocistite crônica e suas sequelas, incluindo a ceratite e a perda visual.

Durante a consulta oftalmológica, o médico realizará testes específicos para avaliar a drenagem lacrimal e, se necessário, solicitará exames de imagem como a dacriocistografia para localizar a obstrução. Com um diagnóstico preciso em mãos, você e seu oftalmologista poderão discutir as opções de tratamento mais apropriadas para seu caso específico, que podem variar desde medidas conservadoras até intervenção cirúrgica.

Referências:

[1] CUF. (s.d.). Obstrução da via lacrimal: o que é, sintomas e tratamento.
[2] Estratégia MED. (2025, 24 de janeiro ). Resumo de Dacriocistite: conceito, causas, tratamento e mais.
[3] Cleveland Clinic. (2025, 14 de fevereiro ). Dacryocystorhinostomy (Tear Duct Surgery): What It Is & Risks.