Por Dra. Camilla Duarte — CRM 129644 SP | RQE 36587
Oftalmologista em Perdizes, São Paulo. Publicado em 15 de julho de 2026.
A conjuntivite alérgica infantil raramente chega ao consultório com esse nome. Chega como um menino que coça os olhos o tempo todo, acorda com as pálpebras grudadas e reclama que "a luz incomoda". Foi assim com um paciente de dez anos que atendi recentemente, em uma consulta que era, na origem, apenas de rotina. Já sabíamos que ele era uma criança alérgica — alergia a poeira e a ácaro. Havia cerca de um mês, no entanto, os pais notavam uma piora clara da parte ocular: mais coceira, mais secreção, mais dificuldade para abrir os olhos pela manhã.
Esse caso resume bem o motivo pelo qual escrevo este texto. Nem toda alteração ocular importante é visível a olho nu. E quando os sintomas de uma criança mudam em relação ao habitual, essa mudança precisa ser levada a sério — não minimizada.
O caso: uma consulta de rotina que revelou mais do que se via
Ao iniciar o exame oftalmológico, o menino tinha alguma dificuldade com as letras menores e errava algumas delas. Eu não conseguia fazer a visão melhorar totalmente, o que já pedia atenção. Examinei a parte da frente do olho — a conjuntiva sobre a parte branca, aquela que conseguimos ver diretamente — e ali não havia nenhuma alteração muito significativa.
A resposta estava onde não se olha à primeira vista. Quando examinei a conjuntiva por dentro da pálpebra inferior e, principalmente, por dentro da pálpebra superior, encontrei uma conjuntiva inflamada, com elevações grandes que chamamos de papilas. Toda vez que a pálpebra desliza sobre a superfície do olho durante o piscar, essas papilas atritam a córnea. É esse atrito que responde pelos sintomas: o incômodo, a coceira, o aumento de secreção e a dificuldade de abrir os olhos ao acordar.
Para confirmar o impacto na superfície ocular, pinguei o colírio de fluoresceína — um corante que evidencia lesões na córnea. Apareceram pontos que coravam de forma difusa por toda a superfície corneana, resultado justamente do atrito das papilas. As papilas estavam nos dois olhos. Não era um quadro discreto: era uma inflamação alérgica com repercussão sobre a córnea.
Em meu consultório, esse é um momento que costumo explicar com calma aos pais. A parte visível do olho pode parecer quase normal, e ainda assim existir uma inflamação relevante escondida do lado de dentro da pálpebra. A criança sente, mas não sabe nomear. Cabe a nós olhar no lugar certo.
O que é conjuntivite alérgica infantil
A Conjuntivite alérgica infantil é o resultado de uma reação exagerada do sistema imunológico a algo geralmente inofensivo — o alérgeno. O alvo dessa reação é a conjuntiva, a membrana delicada que recobre a parte branca do olho e o interior das pálpebras. Diferentemente das conjuntivites infecciosas, causadas por vírus ou bactérias, a forma alérgica não é contagiosa. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, suas principais causas são os aeroalérgenos: ácaros da poeira domiciliar, pelos de cães e gatos, baratas e, em algumas regiões do Sul do Brasil, o pólen de gramíneas.
É uma condição comum na infância. A Associação Americana de Oftalmologia Pediátrica e Estrabismo estima que a conjuntivite alérgica afete cerca de uma em cada cinco crianças. No Brasil, calcula-se que de 12% a 15% das crianças e adolescentes tenham rinoconjuntivite alérgica — a associação dos sintomas oculares com os nasais, como coceira no nariz, espirros e coriza. Não por acaso, muitas das crianças que atendo com queixa ocular também têm rinite ou asma.
Quais são os sintomas da conjuntivite alérgica em crianças?
O sintoma que domina o quadro é a coceira. Se não há coceira, é preciso desconfiar de outro diagnóstico. Junto dela costumam aparecer vermelhidão, lacrimejamento, sensação de "areia" nos olhos, inchaço das pálpebras e fotofobia — o incômodo com a luz. Nas crianças, esses sinais se traduzem em comportamento: esfregar os olhos com frequência, piscar demais, apertar os olhos. E, como no meu paciente, acordar com os olhos grudados por causa da secreção.
Por que a criança piora justamente de manhã?
Essa é uma dúvida frequente dos pais, e tem explicação. Durante o sono, o contato com os alérgenos do quarto é maior — o travesseiro e o colchão concentram ácaros. Além disso, com os olhos fechados por horas, a secreção inflamatória se acumula. O resultado é a criança que acorda com desconforto, secreção e dificuldade para abrir os olhos, exatamente o quadro que motivou a busca por avaliação no caso que relatei.
As papilas e o envolvimento da córnea: quando o quadro é mais sério
Nem toda Conjuntivite alérgica infantil é igual. Na maioria das crianças, o quadro é leve e sazonal. Mas existem formas mais intensas e crônicas, como a ceratoconjuntivite vernal, que merecem atenção redobrada. Essa forma é mais frequente em meninos, costuma se manifestar entre os 5 e os 10 anos e é mais comum em climas quentes. O achado clássico, descrito pela Academia Americana de Oftalmologia, são as papilas gigantes — elevações maiores que 1 milímetro, dispostas em padrão de "paralelepípedo" na conjuntiva tarsal superior, isto é, por dentro da pálpebra de cima. Podem surgir ainda os nódulos de Horner-Trantas, no limbo, e, nos casos avançados, a chamada úlcera em escudo na córnea.
Aqui está o ponto que considero mais importante deste texto. A Sociedade Brasileira de Pediatria é clara: embora a conjuntivite alérgica seja, na imensa maioria das vezes, uma doença benigna que não deixa sequelas, as formas graves com possível envolvimento da córnea devem ser suspeitadas sobretudo nas crianças com alteração da visão e fotofobia intensa — e essas crianças precisam ser encaminhadas imediatamente ao oftalmologista. No meu paciente, a dificuldade com as letras e os pontos que coravam com a fluoresceína eram justamente esse sinal de alerta.
A conjuntivite alérgica infantil pode prejudicar a visão?
Na maior parte dos casos, não. O incômodo é grande, mas a doença se resolve sem deixar marcas. O que muda o prognóstico é o comprometimento da córnea. Quando a inflamação e o atrito das papilas lesionam a superfície corneana de forma repetida e não tratada, existe risco de sequela visual. É por isso que insisto: a criança com queixa ocular persistente, alteração da visão ou muita fotofobia não deve ser observada indefinidamente em casa. Precisa ser examinada.
Como raciocino diante de um caso assim
Costumo organizar a conduta de forma escalonada, ajustando cada passo à resposta da criança:
- Se uma criança sabidamente alérgica apresenta piora ocular persistente, então o exame não pode se limitar à parte visível do olho — é preciso everter a pálpebra e examinar a conjuntiva tarsal.
- Se encontro papilas e sinais de atrito na córnea com a fluoresceína, então confirmo que há repercussão sobre a superfície ocular e inicio o tratamento da crise.
- Se a inflamação está intensa, então associo lubrificação, colírio antialérgico e, por período curto e monitorado, corticoide.
- Se os sintomas tendem a retornar ao suspender o corticoide, então introduzo um colírio imunomodulador para controlar a resposta alérgica sem depender do corticoide a longo prazo.
Esse raciocínio não é rígido. Cada criança responde de um jeito, e o acompanhamento é o que permite ajustar. Mas ele mostra por que o diagnóstico correto muda tudo: sem identificar as papilas, o tratamento seria incompleto.
Tratamento da Conjuntivite alérgica infantil na prática
O tratamento da Conjuntivite alérgica infantil combina medidas ambientais e medicamentosas. As medidas de controle ambiental, recomendadas pela Sociedade Brasileira de Pediatria, são a base — e muitas vezes subestimadas pelas famílias:
- Encapar travesseiros e colchões com tecidos impermeáveis aos ácaros.
- Trocar a roupa de cama semanalmente e lavar roupas guardadas antes do uso.
- Manter mobiliário simples e de fácil limpeza no quarto da criança.
- Evitar animais no quarto de dormir.
- Controlar irritantes como produtos de limpeza de odor forte e, principalmente, fumaça de cigarro.
No campo dos colírios, as diretrizes brasileiras para o acompanhamento e tratamento da conjuntivite alérgica pediátrica, publicadas nos Arquivos Brasileiros de Oftalmologia, descrevem algumas classes: os anti-histamínicos tópicos, os estabilizadores de mastócitos, os agentes de ação múltipla (que reúnem os dois mecanismos) e, quando necessário, os corticoides. Uma medida caseira simples ajuda muito: manter as lágrimas artificiais na geladeira e usar compressas de soro fisiológico geladas, o que alivia a coceira e o desconforto.
Sobre o corticoide, quero ser sincera, porque é um ponto que gera dúvida e, às vezes, medo nos pais. Ele tem, sim, um papel valioso para controlar a crise — foi o que usei no primeiro momento com o meu paciente. Mas não é tratamento de primeira escolha e não pode ser usado por tempo prolongado. O uso excessivo pode aumentar a pressão intraocular e favorecer catarata, motivo pelo qual o corticoide exige acompanhamento oftalmológico e deve ser retirado assim que possível. Não é um colírio para deixar na gaveta e pingar "quando incomodar".
E quando o corticoide não pode continuar? O papel do imunomodulador
Foi exatamente esse o caminho do meu paciente. Quando ele voltou, um mês depois, estava sem sintomas — sem coceira, sem secreção, conseguindo acordar e abrir os olhos normalmente. Ao examinar de novo a conjuntiva da pálpebra superior, as papilas já haviam regredido: estavam planas nos dois olhos, e a fluoresceína confirmava a melhora da superfície. Foi então que entramos em outra fase, com um colírio imunomodulador para diminuir a resposta alérgica, retirando o corticoide — porque não podemos mantê-lo por muito tempo. O paciente segue bem e em acompanhamento.
As diretrizes brasileiras e a literatura internacional respaldam essa estratégia: os imunomoduladores, como a ciclosporina e o tacrolimo em colírio, controlam a inflamação alérgica e são especialmente úteis nos casos que dependeriam de corticoide de forma repetida. É uma forma de proteger a criança dos efeitos do uso prolongado de corticoide sem abrir mão do controle da doença.
Conjuntivite alérgica infantil tem cura?
Prefiro falar em controle, não em cura. A conjuntivite alérgica é uma condição crônica, ligada ao perfil alérgico da criança. A boa notícia — e costumo fazer questão de dizer isso aos pais, porque percebo o alívio no rosto deles — é que a tendência é de melhora com a idade, e muitas crianças ficam praticamente sem sintomas na adolescência. Com tratamento adequado e controle ambiental consistente, a grande maioria vive bem, sem prejuízo da visão.
Quando levar seu filho ao oftalmologista
Entendo o receio dos pais de "medicalizar" cada coceira. Mas há sinais que não devem ser observados em casa por semanas. Procure avaliação oftalmológica quando a criança apresentar coceira ocular persistente ou recorrente, vermelhidão que não cede, secreção, dificuldade para abrir os olhos ao acordar, sensibilidade exagerada à luz ou qualquer queixa de que "não está enxergando bem". Como mostra o caso que relatei, a mudança em relação ao padrão habitual da criança é, por si só, motivo para uma boa avaliação.
Uma observação importante: automedicação com colírios, sobretudo os que contêm corticoide ou vasoconstritores, pode mascarar o quadro e trazer riscos. Qualquer colírio para o olho da criança deve ser prescrito por um médico. Se você percebeu esses sinais no seu filho, vale conversar com um oftalmologista infantil. Se o incômodo principal é a coceira, este outro texto pode ajudar a entender melhor: coceira nos olhos, mais do que um simples incômodo. Para avaliação presencial, minha equipe está à disposição pela página de contato.
O que esse caso me ensina — e o que quero que fique
O que esse paciente traz é a importância de valorizar as queixas. De dar peso aos sintomas que fogem do habitual. Porque nem sempre a alteração é visível no dia a dia, a olho nu — mas quando olhamos com um pouco mais de cuidado, encontramos alterações que explicam o desconforto e que passariam despercebidas se não valorizássemos o que nossos filhos estão contando. Para mim, você não é apenas um diagnóstico, e a criança que coça os olhos não é apenas "uma alergia qualquer". É alguém que está sinalizando, do seu jeito, que algo mudou.
Este texto tem caráter informativo e não substitui a consulta oftalmológica. Cada criança precisa de avaliação individual, com exame da conjuntiva e da córnea, para que o diagnóstico e o tratamento sejam definidos com segurança.
Sobre a autora
Dra. Camilla Duarte Silva (CRM 129644 SP | RQE 36587) é oftalmologista formada pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), com residência em Oftalmologia e fellowships em Plástica Ocular e Cirurgia Refrativa pelo Hospital das Clínicas da FMUSP. Integra o corpo clínico de Oftalmologia do Hospital Sírio-Libanês e é médica colaboradora do Setor de Plástica Ocular do HC-FMUSP. Atende em Perdizes, São Paulo, incluindo oftalmologia infantil.
Fontes
- Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Conjuntivite Alérgica.
- Arquivos Brasileiros de Oftalmologia. Brazilian guidelines for the monitoring and treatment of pediatric allergic conjunctivitis.
- American Academy of Ophthalmology (AAO). Vernal Keratoconjunctivitis.
- American Association for Pediatric Ophthalmology and Strabismus (AAPOS). Allergic Conjunctivitis.


