Alguns problemas oculares chamam atenção pela intensidade dos sintomas — dor aguda, vermelhidão difusa, visão turva. Outros, porém, passam despercebidos ou são atribuídos a causas simples, e é justamente aí que mora o risco. Foi assim com um paciente de 70 anos atendido pela oftalmologista particular Dra. Camilla Duarte.

“Ele chegou com queixa de aumento de secreção no olho direito e de uma ‘bolinha’ na pálpebra inferior direita, algo que vinha percebendo havia cerca de seis meses”, lembra a especialista.

Ao examiná-lo com calma, a médica identificou uma condição rara, mas que pode trazer bastante desconforto: a

canaliculite crônica

— inflamação dos canalículos lacrimais, causada, nesse caso, por pequenos cálculos conhecidos como dacriolitos.

O sistema lacrimal é responsável pela produção e drenagem das lágrimas. Ele é formado por:

- Glândulas lacrimais, que produzem a porção aquosa da lágrima;
- Filme lacrimal, que lubrifica e protege o olho;
- Pontos lacrimais, pequenas aberturas na margem das pálpebras;
- Canalículos, canais estreitos que conduzem a lágrima dos pontos lacrimais até o saco lacrimal;
- Saco e ducto nasolacrimal, que levam a lágrima para o nariz.

“Os canalículos são estruturas muito delicadas e de calibre pequeno. Qualquer obstrução ou inflamação nessa região interfere diretamente no escoamento da lágrima”, explica a Dra. Camilla.

A canaliculite é uma inflamação localizada nos canalículos, geralmente de evolução lenta e persistente. Ao contrário de infecções mais comuns, como a conjuntivite, ela afeta um ponto específico do sistema lacrimal.

Ela representa uma pequena porcentagem das doenças dessa via, mas merece atenção porque pode ser confundida com outros quadros, atrasando o diagnóstico.

canaliculo saudável vs canaliculite

“É comum o paciente receber colírios ou pomadas para conjuntivite sem melhora significativa. O problema é que a origem da inflamação não está na superfície ocular, mas dentro da via lacrimal”, comenta a especialista.



O paciente apresentava:

- Secreção persistente no olho direito;
- Inchaço e vermelhidão na pálpebra inferior;
- Pequeno nódulo próximo ao canto interno do olho.
Durante o exame na lâmpada de fenda, a Dra. Camilla observou secreção aderida no ponto lacrimal inferior direito.

“Tentei fazer a expressão para remover, mas não foi possível. Usei um cotonete para tirar a secreção e, assim que ela saiu, pude visualizar um material esbranquiçado e endurecido, com aspecto calcificado — semelhante a um dacriolito”, descreve.

Os dacriolitos são formações sólidas que se acumulam dentro dos canalículos ou do saco lacrimal. Eles se formam a partir de restos celulares, secreção espessa e depósitos minerais que, com o tempo, endurecem.

“Esses cálculos funcionam como um corpo estranho. Eles dificultam a drenagem da lágrima e criam um ambiente propício para bactérias, mantendo a inflamação ativa”, explica a Dra. Camilla.

Em alguns casos, os dacriolitos são visíveis durante o exame; em outros, permanecem ocultos até que o canalículo seja explorado.

Os sintomas podem variar, mas os mais frequentes são:

- Secreção persistente em apenas um olho;
- Pequena elevação ou nódulo próximo ao ponto lacrimal;
- Vermelhidão localizada;
- Sensação de desconforto ou pressão na região;
- Leve lacrimejamento associado.

“O fato de afetar quase sempre um lado só é uma pista importante. Muitas doenças oculares atingem ambos os olhos; quando vemos um sintoma isolado, precisamos investigar com mais atenção”, ressalta a médica.

A canaliculite pode ser confundida com:

- Conjuntivite crônica: vermelhidão e secreção podem enganar, mas a conjuntivite afeta toda a superfície ocular, não apenas a região próxima ao ponto lacrimal;
- Blefarite: inflamação das margens das pálpebras, mas sem o nódulo característico no trajeto lacrimal;
- Dacriocistite: infecção do saco lacrimal, que costuma provocar dor mais intensa e inchaço abaixo do canto interno do olho.

“Um exame direcionado para a via lacrimal é essencial para diferenciar essas condições”, afirma a Dra. Camilla.

Entre as causas mais comuns de canaliculite estão:

- Infecção bacteriana, especialmente por Actinomyces israelii;
- Infecções fúngicas;
- Formação de dacriolitos;
- Alterações anatômicas que favorecem retenção de secreção.

A idade avançada é um fator de risco, pois as estruturas de sustentação e a própria função de drenagem tendem a se tornar menos eficientes ao longo dos anos.

É hora de procurar um oftalmologista especializado se você notar:

- Secreção unilateral persistente;
- Pequena “bolinha” próxima ao canto interno do olho;
- Vermelhidão ou inchaço localizado na pálpebra inferior;
- Recorrência de inflamações no mesmo ponto;
- Falta de resposta a tratamentos comuns para conjuntivite.

“O paciente pode conviver por meses com o desconforto, mas a solução só vem quando identificamos a causa real. Isso exige um exame minucioso e experiência do profissional”, reforça a especialista.

Mesmo não sendo uma doença de risco elevado para a visão, a canaliculite crônica compromete a qualidade de vida:

- O excesso de secreção incomoda e pode gerar constrangimento;
- A vermelhidão constante afeta a aparência;
- A inflamação contínua deixa a região mais vulnerável a novas infecções.

1. O que é canaliculite crônica?
É uma inflamação persistente dos canalículos lacrimais — canais que drenam as lágrimas dos olhos para o nariz. Pode ser causada por bactérias, fungos ou pela presença de pequenos cálculos chamados dacriolitos.

2. Quais são os sintomas mais comuns?
Os principais sinais incluem secreção persistente em apenas um olho, pequena “bolinha” próxima ao canto interno, vermelhidão localizada e sensação de desconforto na pálpebra inferior.

3. A canaliculite é contagiosa?
Não. Ela não é uma infecção contagiosa como a conjuntivite viral. Trata-se de uma inflamação localizada que não se transmite pelo contato casual.

4. Como diferenciar canaliculite de conjuntivite?
A conjuntivite geralmente afeta os dois olhos e provoca vermelhidão difusa. A canaliculite, por outro lado, costuma ser unilateral e se concentra na região próxima ao ponto lacrimal, podendo apresentar nódulo e secreção localizada.

5. Quando procurar um oftalmologista?
Sempre que houver secreção persistente em apenas um olho, presença de nódulo próximo ao canto interno ou recorrência de inflamações na mesma área, é fundamental buscar avaliação com especialista.

O caso do paciente de 70 anos atendido pela oftalmologista Camilla Duarte mostra como um sintoma aparentemente simples — secreção e um pequeno nódulo na pálpebra — pode esconder uma condição rara como a canaliculite crônica.

“Sempre que houver sintomas persistentes, procure um oftalmologista especializado. Um exame detalhado pode revelar problemas que não aparecem em uma avaliação superficial”, conclui a médica.

Lembre-se: cuidar da saúde ocular não é apenas tratar sintomas, mas investigar suas causas.